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O copo usado de extrato de tomate

Alexey Dodsworth Magnavita
Escritor, mestre em Filosofia e consultor da UNESCO no Brasil

Nos anos 1970, lembro-me como se fosse hoje, na casa de uma de minhas parentes havia dois tipos de copo. A utilização de um tipo ou do outro dependia da taxa da melanina alheia. Funcionava assim: se eu estivesse com um coleguinha cuja pele tivesse a cor mais escura e ele pedisse água, a ele era oferecido o copo de extrato de tomate que, quando vazio, era lavado e utilizado como copo d’água. Aos meus coleguinhas de tez mais clara, eram oferecidos os copos usuais, da casa.

Ficou chocado? Esse tipo de procedimento não era exclusivo dessa minha parente, era algo bastante corriqueiro entre muitas (não todas, mas muitas) famílias de pele clara que moravam em Salvador. O racismo, obviamente, tinha a ver com a cor da pele, não com ideais enlouquecidos de “raça pura”. Eu, que vivi grande parte da vida numa bolha familiar italiana em Salvador, sou totalmente mestiço de europeu com indígenas e negros, mas minha pele clara me autorizava a beber água num copo que não fosse um recipiente usado de extrato de tomate.

http://www.brasilpost.com.br/alexey-dodsworth-magnavita/o-copo-usado-de-extrato-de-tomate_b_6191798.html