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Os versos de um menino em uma cela

Um interno da Fundação CASA é finalista de um concurso nacional de poesia
Sonhar com o prêmio, diz o adolescente de 17 anos, mudou a sua vida

O tema escolhido este ano para o concurso nacional de poesia da Olimpíada de Língua Portuguesa foi “O lugar onde vivo”. Entre os quase 54.000 poemas recebidos, chegou à final o de um garoto de 17 anos, preso pela terceira vez por tráfico de drogas na Fundação CASA, como são chamados de forma amigável os centros de internação para menores infratores em São Paulo. O lugar onde ele vive é formado por quatro celas, um banheiro dividido entre 30 internos, um refeitório e duas salas de aula com vista para uma pista esportiva. Os muros com arame farpado não deixam ver nada do que está do lado de fora. O jovem, que tem dois filhos gêmeos de um ano, aos quais só conseguiu ver duas vezes, intitulou seu poema de “Vida em Transição”.

A semifinal em Belo Horizonte, de onde saíram 38 finalistas, levou o menino pela primeira vez para fora de São Paulo com sua professora e um agente de segurança. Nunca havia entrado em um avião – “como é grande, né?”, disse ao vê-lo de perto –, nem sabia o que era se hospedar em um hotel. “Estava com medo porque pensei que iam me tratar mal, eu era o diferente, há muito preconceito. Mas fiz amigos e vi pessoas que não conhecia chorando pela minha vitória. Nunca havia tido essa experiência de gente apostando pelo bem dos outros. Essa viagem mudou minha vida, me fez ver que, apesar de estar onde estou e o que fiz, há outras vidas que eu também posso viver”, conta na sala de aula onde estuda das 7h30 às 12h. O concurso premiou os finalistas com uma tablet, um computador e um vale de 300 reais em livros. Ele gastou o dinheiro em vários contos infantis, mas também em José Saramago e Agatha Christie.

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/05/cultura/1415220381_799096.html