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50 anos do Golpe

por Hildegard Angel

“Eu não exporia os militares que agora falam, mesmo os que torturaram, como monstros. Alguma dignidade eles guardam, pois ao falar expiam culpas. E quem tem culpa, tem consciência. O remorso é prerrogativa de quem guarda dentro de si sentimento. Monstruosos de fato são aqueles que se calam em seus horrores, compartilham entre si as atrocidades cometidas. Como caçadores de safaris que expõem cabeças empalhadas de bichos decapitados nas paredes de suas mansões.

…Se pudessem, esses que se calam, pendurariam, como se fossem troféus de guerra, recuerdos nostágicos, as cabeças de meu irmão, minha mãe, minha cunhada e de todos os milhares de brasileiros trucidados – pois há os sabidos e os não sabidos – emolduradas em seus livings e, entre drinks, chacoalhando as pedras de gelo com os dedões, comentariam as próprias barbaridades, aos requintes, de modo espalhafatoso: “Esta cicatriz, vocês precisavam ver na hora…”.

…São estes os verdadeiros monstros: os que batem no peito, se orgulham, fazem mistério sobre o paradeiro dos corpos, acordos mafiosos de silêncio eterno à la Omertá, queimam documentos, escondem vestígios.

…Ignoram que, no próprio dia do Golpe, 1º de Abril de 1964, o Estádio Caio Martins de Niterói foi lotado com prisioneiros, intelectuais, artistas, estudantes, jornalistas. E os golpistas recorreram ao estádio porque já haviam lotado três navios de guerra fundeados na Baía da Guanabara, especialmente para acolher prisioneiros. Que, por sua vez, estavam cheios de gente porque os quartéis também já estavam. Estes precisaram ser usados porque as celas das delegacias também abarrotadas estavam…”

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